Como é feito o diagnóstico do lipedema, e o que o ultrassom mostra (e não mostra)

Por Dr. Diego TorricoMédico · CRM 75666 MG

Revisado em 11 min de leitura

Mão de uma médica segurando o transdutor de ultrassom ao lado do monitor do aparelho.

O diagnóstico do lipedema é clínico: vem da sua história e do exame físico feito por um profissional com experiência, depois de afastadas outras causas. Nenhum exame de imagem ou de sangue confirma o lipedema sozinho. O ultrassom ajuda a excluir problemas nas veias e acúmulo de líquido, e a documentar a espessura da gordura.

Como é feito o diagnóstico do lipedema?

Três referências recentes dizem a mesma coisa. O consenso internacional publicado em 2026, com especialistas de 19 países, afirma que o diagnóstico se apoia na história da paciente, no exame físico e na exclusão de outras doenças, com 98,4% de concordância [2]. O consenso brasileiro de 2025 aprovou a mesma afirmação [5]. E a diretriz alemã de 2024 recomenda, por consenso de 100%, que o diagnóstico seja clínico, porque não existe exame de aparelho ou de laboratório capaz de prová-lo [1].

Na prática, a avaliação tem três partes:

  1. História clínica: quando o corpo mudou, o que você sente, o que já tentou.
  2. Exame físico: como a gordura se distribui, como o tecido reage ao toque, como estão pés, mãos, pele e veias.
  3. Exclusão de outras causas: linfedema, doença venosa, obesidade sem lipedema, alterações da tireoide, dos rins ou do coração.

Por depender tanto do olhar clínico, o lipedema ainda passa despercebido com frequência. O padrão de cuidado dos EUA registra que o subdiagnóstico pode atrasar a identificação por décadas [3].

O que o profissional pergunta na consulta?

A conversa é a parte mais importante da avaliação. Costumam entrar nela:

  • Quando começou. O lipedema costuma surgir ou piorar em fases de mudança hormonal, como puberdade, gravidez e menopausa [4].
  • Família. É comum haver outras mulheres com o mesmo formato de corpo [4].
  • Como é a dor. A diretriz alemã define como sintomas do lipedema a dor à pressão e ao toque, a dor espontânea e a sensação de peso [1]. Muitos profissionais usam uma escala de 0 a 10 para acompanhar a intensidade [4].
  • Sensação de inchaço ao longo do dia. É uma queixa frequente. Um estudo citado pela diretriz alemã não conseguiu medir esse aumento de volume e interpretou a sensação como parte da experiência de dor [1]. Isso não quer dizer que você imagina o inchaço: quer dizer que a sensação é real e merece ser contada.
  • Roxos, dietas e peso. O que acontece com as pernas quando você emagrece ajuda a diferenciar lipedema de obesidade.
  • Saúde emocional. A diretriz alemã recomenda que fatores psíquicos sejam considerados já na primeira consulta [1].
  • Outras condições. Varizes, remédios em uso, cirurgias, problemas de tireoide.

O que o profissional observa no exame físico?

O exame procura um conjunto de sinais, nenhum deles decisivo sozinho:

  1. Proporção e simetria. Aumento de gordura nos membros, desproporcional ao tronco e parecido dos dois lados [1].
  2. Pés e mãos. Em geral poupados, com um "degrau" onde a gordura termina, no tornozelo ou no punho [1]. O padrão de cuidado dos EUA observa que cerca de 30% das mulheres com lipedema podem ter gordura também nas mãos [3].
  3. Sensibilidade. Um pinçamento leve da pele e da gordura costuma ser bem desagradável nas áreas afetadas e indolor em outros lugares [4].
  4. Cacifo. Ao pressionar a pele com o dedo, no lipedema em geral não fica marca afundada [2, 5].
  5. Sinal de Stemmer. Tentativa de pinçar a pele na base do segundo dedo do pé. Costuma ser negativo no lipedema; se for positivo, sugere um componente linfático [2].
  6. Veias e pele. Varizes e sinais de doença venosa, que podem coexistir [3].
  7. Medidas. Peso, altura, cintura e quadril já na primeira consulta, e circunferências dos membros para acompanhar a evolução [1]. O índice de massa corporal tende a dar valores falsamente altos no lipedema, e por isso as diretrizes sugerem somar a relação entre cintura e altura [1, 2].

O profissional também pode descrever o estágio e o tipo, conforme a região atingida. A diretriz alemã e o consenso internacional lembram que essas classificações descrevem a aparência e não medem a intensidade dos sintomas [1, 2].

Dois sinais clássicos estão em discussão. O padrão de cuidado dos EUA recomenda incluir os nódulos palpáveis na gordura entre os critérios [3], enquanto a diretriz alemã recomenda não usá-los, por falta de validade [1]. A tendência a roxos é relatada com frequência, mas a mesma diretriz alemã não a aceita como critério decisivo [1]. A comparação completa com as condições parecidas está em como diferenciar lipedema, linfedema e celulite.

Existe exame que confirma o lipedema?

Não, hoje não existe. O consenso internacional de 2026 afirma, com 93,5% de concordância, que nenhum exame de imagem, de sangue, genético ou instrumento de medida está oficialmente aprovado para verificar o diagnóstico [2]. Uma revisão sistemática de 2024, com 32 estudos e 1.154 pacientes, concluiu que o desempenho diagnóstico das imagens disponíveis é limitado e que faltam estudos prospectivos [8].

Há quem pense diferente. Pesquisadores brasileiros escreveram em 2022 que ultrassom, ressonância e tomografia "podem confirmar" o diagnóstico [15], e o mesmo grupo propôs medidas de ultrassom com esse objetivo [6]. As diretrizes mais recentes ainda não adotam essa posição [1, 2].

Os exames, portanto, servem para três coisas: excluir outras causas, documentar o tecido e acompanhar a evolução.

Exame O que pode mostrar O que não faz
Eco-Doppler venoso Varizes, refluxo nas veias e trombose, que podem coexistir com o lipedema Não confirma nem exclui lipedema
Ultrassom da pele e da gordura Espessura da gordura sob a pele e da derme, presença ou ausência de líquido Não tem critério validado que prove o lipedema
Linfocintilografia Como a linfa circula, quando há suspeita de linfedema associado Alterações leves são comuns no lipedema e não o descartam
Ressonância e tomografia Aumento da gordura subcutânea, sem edema no lipedema puro Não mostram achado específico do lipedema
DEXA (densitometria de corpo inteiro) Quanto da gordura está nas pernas em relação ao corpo Não tem papel na rotina; serve a perguntas específicas
Exames de sangue Tireoide, rins, coração, fígado, glicose e gorduras do sangue Não detectam lipedema
Bioimpedância Composição corporal Não permite diagnosticar lipedema, segundo a diretriz alemã

Fontes da tabela: [1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 11, 12]

Lipedema aparece no ultrassom?

Aparece, mas precisa ser bem interpretado. O ultrassom entra na avaliação de duas formas, que muitas vezes são feitas no mesmo exame.

O eco-Doppler das veias

O padrão de cuidado dos EUA recomenda avaliar as veias profundas e superficiais das duas pernas com eco-Doppler, em busca de refluxo, trombose e obstrução [3]. A diretriz alemã vê nesse exame a função de identificar doenças vasculares que confundem ou acompanham o lipedema, como varizes e sequelas de trombose [1]. O consenso brasileiro incluiu, com nível de evidência baixo (opinião de especialistas), uma afirmação de que a avaliação inicial costuma ter ultrassom para descartar edema e eco-Doppler para descartar varizes [5]. A sobreposição é real: num estudo brasileiro, 45,1% das mulheres com lipedema tinham varizes [6].

O ultrassom da pele e da gordura

Com o aparelho no modo de imagem comum, dá para medir a pele e a camada de gordura e observar a textura do tecido. O que as pesquisas descrevem no lipedema:

  • Gordura subcutânea mais espessa. Num estudo com 89 mulheres, 63 delas com lipedema diagnosticado clinicamente, dois examinadores que não sabiam o diagnóstico mediram quatro pontos de cada perna. A espessura foi maior no lipedema em todos eles, e a região da canela teve o melhor desempenho. Os autores sugeriram pontos de corte de 11,7 mm na canela, 17,9 mm na coxa e 8,4 mm na lateral da perna [6].
  • Derme parecida com a de quem não tem lipedema. No linfedema, a derme fica mais espessa e escura na imagem. Num estudo com ultrassom de alta frequência, esse escurecimento apareceu em 100% das pacientes com linfedema e em 12,5% das com lipedema, cuja espessura de derme não diferiu da do grupo controle [7].
  • Sem líquido visível. Os critérios que indicam edema no ultrassom não são preenchidos no lipedema [1, 3]. Isso ajuda a separá-lo do linfedema e de inchaços de outra origem.
  • Tecido menos compressível. Um estudo encontrou gordura que se deixa comprimir menos no lipedema, mas há dados contraditórios [1].

Onde o ultrassom tem limites

A diretriz alemã recomenda, por consenso de 100%, que não se tirem conclusões sobre a causa de um inchaço apenas pela imagem do ultrassom [1]. Num estudo de 2015, cinco médicos experientes não conseguiram distinguir linfedema de inchaços de origem cardíaca, venosa ou hepática olhando só as imagens [9]. E dois trabalhos não conseguiram separar com segurança, pelo ultrassom, o lipedema de pele normal, de obesidade ou de lipo-hipertrofia [1, 7].

Os pontos de corte propostos vieram de um único serviço, com amostra de conveniência e grupo de comparação formado por mulheres em investigação de varizes [6]. A diretriz alemã afirma que ainda não há critérios de imagem definidos nem pontos de corte confiáveis [1], e o consenso internacional, por unanimidade, pede estudos que validem os exames quanto a reprodutibilidade, sensibilidade e especificidade [2].

O ultrassom é um bom aliado quando segue um protocolo padronizado, com os mesmos pontos de medida a cada exame, e quando o laudo é lido junto com a avaliação clínica. Ele documenta, ajuda a excluir e acompanha. Ele não dá o veredito.

Para que serve a linfocintilografia no lipedema?

A linfocintilografia acompanha, por imagem, o caminho de uma pequena quantidade de marcador radioativo injetada no pé, e mostra como a linfa circula. O padrão de cuidado dos EUA recomenda o exame quando há suspeita de linfedema junto do lipedema [3]. Também faz sentido quando o sinal de Stemmer é negativo, mas a suspeita de linfedema é alta [13].

O exame não serve para confirmar lipedema. A Sociedade Internacional de Linfologia registra que, nas fases iniciais, o lipedema puro costuma mostrar função linfática normal [10]. Uma revisão sistemática de 2026, com 311 mulheres com lipedema, encontrou exame normal em 61,4% delas. Quando havia alteração, o achado mais comum foi o de vasos tortuosos, e o refluxo da linfa para a pele, achado ligado ao linfedema, apareceu em só 3,8% [11]. Os autores interpretam essas alterações como sobrecarga do sistema, não como falência. Em outro estudo, com 83 mulheres, 47% tinham alguma alteração, quase sempre leve, e os autores concluíram que isso não descarta o lipedema [12].

Ressonância, tomografia e DEXA ajudam no diagnóstico?

Ajudam em situações específicas e, sobretudo, em pesquisa. A diretriz alemã registra que a tomografia não fornece prova específica de lipedema, e que a ressonância mostra aumento da gordura subcutânea com textura homogênea, sem edema no lipedema puro, num estudo que incluiu só mulheres com IMC acima de 31 [1]. A revisão sistemática de 2024 cita uma proposta de corte na DEXA, a densitometria de corpo inteiro, baseada na massa de gordura das pernas ajustada ao IMC [8]. Uma revisão alemã reserva DEXA e bioimpedância para perguntas específicas, fora da rotina [4].

Exame de sangue detecta lipedema?

Não. A diretriz alemã afirma que exames de laboratório servem para excluir outras doenças, mas não para provar o lipedema [1]. Eles investigam causas de inchaço e condições que costumam acompanhar o quadro:

  • Tireoide: TSH, T3 e T4 livres [1].
  • Rins: creatinina, filtração glomerular e proteína na urina [1].
  • Coração: NT-proBNP, para afastar insuficiência cardíaca [1].
  • Fígado, gorduras do sangue e resistência à insulina [4].

O consenso internacional também registra que nenhum teste de sangue ou genético está aprovado para o diagnóstico [2].

Qual médico avalia e trata o lipedema?

No Brasil, o consenso de 2025 foi conduzido pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, e 83,2% dos especialistas que responderam eram cirurgiões vasculares [5]. Na prática, angiologistas e cirurgiões vasculares costumam ser a porta de entrada, porque avaliam também veias e sistema linfático.

O mesmo consenso descreve o cuidado como multidisciplinar, com médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e profissionais de saúde mental, e cita especialidades como cirurgia vascular, endocrinologia, ortopedia, cirurgia plástica, psiquiatria e ginecologia [5]. O padrão de cuidado dos EUA acrescenta a avaliação por um terapeuta com formação em linfedema, que examina postura, equilíbrio, marcha e mobilidade das articulações [3].

Mais do que o título da especialidade, pesa a experiência com lipedema e com as condições que se parecem com ele. Procure avaliação de um profissional de saúde. Se você sair da consulta ouvindo apenas que precisa emagrecer, sem que suas queixas tenham sido examinadas, buscar uma segunda opinião é legítimo.

Como se preparar para a avaliação?

  1. Monte uma linha do tempo. Quando as pernas ou os braços mudaram, e o que acontecia na sua vida nessa época.
  2. Descreva a dor. Onde, como, em que momentos e com que intensidade, de 0 a 10.
  3. Leve fotos antigas. Elas mostram a evolução melhor do que a memória.
  4. Anote a história da família. Mãe, avós, irmãs e tias com o mesmo formato de corpo.
  5. Reúna exames anteriores. Eco-Doppler, exames de sangue e laudos de ultrassom que você já tenha.
  6. Liste remédios e cirurgias. Inclusive tratamentos hormonais.

Para entender o que vem depois do diagnóstico, leia o que a ciência sustenta sobre o tratamento do lipedema. E se você ainda está no começo dessa história, o que é lipedema e os sinais e estágios do lipedema ajudam a chegar mais preparada.

Perguntas frequentes

Lipedema tem CID?

Tem. Na CID-11, a classificação internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde, o lipedema recebeu o código EF02.2. A OMS o descreve como um inchaço gorduroso difuso, sem cacifo, em geral nas pernas, coxas, quadris e braços, que pode ser confundido com linfedema.

O IMC serve para diagnosticar lipedema?

Não. O índice de massa corporal não mostra onde a gordura está e tende a superestimar o excesso de peso de quem tem lipedema. A diretriz alemã e o consenso internacional sugerem somar medidas de cintura e quadril e a relação entre cintura e altura.

Questionário online diagnostica lipedema?

Não. Questionários de rastreamento ajudam a levantar a suspeita. O estudo brasileiro de prevalência, feito com um questionário online respondido por 253 mulheres, estimou 12,3% com alta probabilidade de lipedema, e os próprios autores registram que não houve confirmação médica. Quem confirma é a avaliação clínica.

Dá para ter lipedema com peso normal?

Dá. A diretriz alemã registra que a maioria das mulheres com lipedema tem sobrepeso ou obesidade, mas uma parte tem peso normal. O que caracteriza o lipedema é a desproporção dolorosa dos membros, não o número na balança.

O lipedema pode aparecer só depois de uma cirurgia bariátrica?

Pode ficar evidente só nesse momento. Uma revisão alemã descreve casos em que, depois da bariátrica, o corpo emagrece e a desproporção das pernas continua. O consenso internacional também afirma que, quando lipedema e obesidade coexistem, os sintomas do lipedema tendem a persistir após a cirurgia.

Referências

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